Quando minha avó materna começou a demonstrar os primeiros sintomas de Alzheimer, eu não imaginei que, ao longo do tempo, ela [re]viveria tantas histórias.
Eu já tinha ouvido falar sobre a doença e sabia o que a maioria das pessoas parecia saber: "o Alzheimer é a doença que faz esquecer", e, de uma maneira que ninguém parece saber explicar, "essa doença mata".
Foi assim que perdi meu bisavô paterno em 2010, no "auge" dos seus 86 anos de idade (agora posso revelar sua idade verdadeira, mas, enquanto vivia, era inadmissível dizer que ele já tinha passado dos 75). Embora economizássemos com as velas de aniversário, toda a família se entristeceu durante os pouco mais de três anos em que, gradualmente, ele perdia a memória, e, com ela, outras funções psicológicas como percepção e atenção.
No começo, era engraçado: ele contava histórias, inventava histórias, misturava histórias.... Nem sei dizer quantas vezes ouvi sobre os cavalos, sobre o sítio que ele quase comprou, sobre as terras que ele tinha abandonado em algum lugar, e sobre os animais que ainda precisava buscar. Depois ele contou, misturou e errou nomes... e então os esqueceu. Brigou com meu pai, com a minha avó, e achou que todos eram estranhos e que estavam tentando envenená-lo. Tentou arrumar uma esposa. Parou de comer, de tomar banho, e aí não queria mais conversar com ninguém. Foi se fechando em um Mundo de memórias falhas que ele mesmo criou.
E eu, como [quase] psicóloga, comecei a achar que esse era o pior fim para uma pessoa: morrer pelo esquecimento, todos os dias, pouco a pouco. Morrer pela mente.
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Comecei esses escritos em 2013, quando minha avó materna já vivia o segundo ano com essa doença. Parece irônico, mas eu mesma não me lembro de todos os detalhes.
Sei que, naquela época, o que me motivou a escrever foi a presença do meu avô paterno, o qual veio de outra cidade para passar uns dias (talvez semanas) na casa da minha família. Minha avó, embora seja quase 30 anos mais velha do que ele, o chamava de pai ou de tio, e a presença dele (embora, infelizmente, não fosse a mais desejada naquele momento) fez minha avó reviver muitas lembranças da sua infância, e isso fez crescer em mim a vontade de registrá-las, seja em fotos, textos, ou em minhas próprias memórias.
As coisas que agora eu compartilho com vocês, o faço porque sei que, conforme envelhecer, minha mente se definhará também. Justo eu, que tanto me gabo da boa memória que tenho...!
Prestem atenção aos detalhes. A história nunca é linear, e por vezes não fará sentido algum. Por isso lhes dou a permissão de esquecê-la logo que fecharem a página. Mas, enquanto estiverem aqui, tentem lembrar-se. Esse é um museu de memórias mortas, um lugar para desafiar o tempo, o espaço e as próprias lembranças; um lugar onde presente, passado e futuro se misturam e se distanciam a cada minuto; e se renovam, se repetem, se revivem, e se acabam... mesmo que talvez nem tenham existido.
Sensacional <3 tá demais!
ResponderExcluirAguardando ansiosamente os próximos textos! Muito Bom!
ResponderExcluirE no fim, isso tudo deveria virar é um LIVRO FENOMENAL!! Com direito à autógrafos e tudo.. :) Lindo o texto.
ResponderExcluirQuando a vó começou a ficar doente, minha mãe deu essa ideia também...
ExcluirEla viu um cara que estava escrevendo sobre o pai dele (e depois fui procurar na internet e descobri que existem vários blogs sobre o assunto), e na mesma época conhecemos alguns outros casos - inclusive o de uma professora que estava escrevendo porque a mãe dela tinha Alzheimer e ela tinha medo de ficar doente também. Tem vários casos comoventes...
Pois é. Você escreve muito bem, e pelo jeito tem muito o que contar. Ta aí um belo projeto :)
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